[Opinião] Por que somos socialistas? 

Flora GomesRedação UàE – 30/05/2022

Imagem: Edição UàE/ Original: José Espanca

Os homens fazem sua própria história mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado (Karl Marx, 18 de Brumário de Luís Bonaparte)

Centenas de mortes diárias em operações policiais legalizadas pelo Estado; preço de alimentos que compõem a cesta básica subindo a cada dia;  patrimônio brasileiro sendo rifado à preço de banana;  grandes centros urbanos expulsando a população que não consegue pagar por aluguéis equivalentes a um salário mínimo;  universidades cada vez mais penetradas pela lógica do capital; e vários outros indicativos diários nos lembram que a vida social não anda bem. 

Neste cenário torna-se praticamente impossível não ser tomado por um sentimento de que as coisas devem mudar. Diversas alternativas, com diferentes horizontes de projeto para o país, são apresentadas como perspectivas. Mas nesse texto trazemos elementos para construir caminhos sobre um questionamento muito simples: por que, frente a todas as alternativas, o socialismo é a única opção para a barbárie que vivemos?

Perante a intensificação da degradação das condições de vida, alguns sujeitos políticos tendem a apresentar como alternativa à população uma correção das falhas do capitalismo. Para estes, os problemas não seriam estruturais, mas gerenciais. Bastaria que um novo presidente, mais carismático e solidário, assumisse a cadeira da presidência da república e promovesse maior “equidade social”.

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Outros, por sua vez, tendem a radicalizar ainda mais à direita e trazer como alternativa a correção dos maus costumes, a exterminação dos pobres e uso do poder coercitivo do Estado para reprimir os sujeitos destoantes da norma social vigente. 

Para nós, socialistas, nenhuma destas ou outras alternativas intermediárias de fato resolvem significativamente os problemas que estamos enfrentando, pois suas raízes são de outra ordem. Em uma sociedade em que o trabalho criativo do ser humano com a natureza torna-se uma relação de exploração, na qual alguns trabalham para sobreviver enquanto outros gozam dos frutos deste trabalho, não há outra alternativa que não subverter radicalmente essa relação. E frente a isso, o socialismo, apesar de uma tarefa histórica gigante, é algo simples. 

O socialismo é um período de transição que inaugura um novo momento histórico, no qual a propriedade privada é substituída pela socialização dos meios de produção e a classe trabalhadora torna-se dominante. Essa transformação radical traz efeitos profundos no trabalho, no lazer, nos processos educativos, nas relações eróticas, nas produções artísticas, entre outros aspectos. Mas tal como apontou Marx, não escolhemos as condições históricas na qual travamos nossas lutas, e por isso, apesar do ímpeto dos socialistas, a revolução não ocorre no momento em que desejamos, mas quando a classe trabalhadora reúne as condições objetivas e subjetivas  necessárias e suficientes para encabeçar esse processo histórico. 

Nisso nos diferenciamos absolutamente dos anarquistas, que apostam em um  autonomismo no qual basta a cada sujeito individual colocar em movimento certos espaços de luta. Para nós o sujeito histórico da revolução social é a classe trabalhadora. A classe, enquanto tal, não existe em si ou para si, mas deve constituir-se nos espaços de luta. Por isso não nos contentamos com atuações isoladas que revestem-se de um aparente avanço ou radicalismo – tal como os anarquistas -, mas sim, buscamos a constituição de um corpo unificado nos processos de luta, ainda que individualmente os sujeitos apresentem – e necessariamente isso ocorre – diferenças entre si. 

Desta forma, também nos diferenciamos dos anarquistas por termos um projeto sistemático para o país, pois não nos contentamos com movimentos pontuais que aparentam um ar de transformação social. Nos interessa subverter radicalmente as relações gerais de produção, sempre considerando aspectos importantes da formação social de cada território. 

Isso não significa que, mesmo sendo a classe trabalhadora o único sujeito revolucionário da histórica que se iniciará, os partidos socialistas estejam eximidos de tarefas cotidianas, muito pelo contrário. De início, uma tarefa fundamental é a realização de análises de conjunturas rigorosas e sistemáticas, pois este instrumento é o que possibilita medir o momento em que as classes se encontram e contribuir com as lutas da forma mais avançada possível. Neste momento que vivenciamos no Brasil, de arrefecimento dos processos de luta encabeçadas pela classe trabalhadora, por exemplo, os partidos têm como tarefa fundamental a formação de quadros políticos capazes e a educação da classe trabalhadora através dos mais diversos instrumentos que podem ser criados. Tarefas que só podem ser alcançadas se atravessadas por um projeto econômico, político e social de país, totalmente atrelado ao que é central para os trabalhadores. 

A cada tarefa cotidiana, seja em reuniões de sindicato; construção de Centros Acadêmicos ou outras entidades estudantis; participação em movimentos sociais; ocupações de terras no campo e na cidade; ou qualquer outro espaço de atuação, os socialistas jamais perdem de vista que o fardo das atividades pequenas só podem ser sustentados tendo como horizonte a transformação radical da sociedade.

Cada atividade não carrega em si o sentido de transformação social que almejamos. Mas se ela é uma tarefa importante dentro da estratégia socialista, isso é o suficiente para que ela seja executada com entusiasmo e rigor, ainda que pareça pequena frente aos desafios conjunturais. Isso porque os socialistas jamais abandonam a construção de uma nova sociedade. A cada passo, mesmo que “um para frente e dois para trás”, como afirmava Lênin, é na trilha do enterro da sociabilidade do capital que caminham os socialistas. 

O caráter da revolução, o nível de violência empregado para a tomada do poder, o período de transição entre uma sociedade e outra, em qual país eclodirá a primeira chama revolucionária que colocará abaixo o sistema do capital e outros detalhes desse processo só podem ser respondidos no curso da própria história. 

A certeza da qual os socialistas estão seguros é de que nessa nova sociedade serão resolvidos os dilemas que se apresentam insolúveis nessa conjuntura, como o fato de haver imóveis vazios ou proprietários de loteamentos inteiros enquanto há famílias sem terem onde morar e diversas outras deixando todo o seu salário em aluguéis; também resolveremos a questão alimentar, já que nossa produção não estará servindo de exportação para garantir os lucros das classes dominantes em detrimento da sobrevivência da população; colocaremos um fim à política de preço de paridade de importação de uma empresa tão importante como a Petrobrás, para assegurar o controle de preços nos combustíveis e gás de cozinha; nossas universidades serão instituições efetivamente autônomas do Estado e produzirão conhecimentos que desafiam os limites do que se sabe até então na ciência, filosofia e nas artes. 

Essas são apenas algumas das mudanças que nós socialistas almejamos e que nos fazem ter a certeza de que não há outro caminho que não a transformação radical da sociedade. Muitas outras mudanças estão para serem pensadas com toda a classe no curso revolucionário.

Aos que ainda têm dúvida sobre ser possível ou não mudar significativamente o que está posto, a resposta é simples: ou construímos o socialismo desde já ou só nos resta a barbárie.

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